Diane Arbus

Com o intuito de criar um repertório visual em seus alunos e ajudá-los a expandir suas temáticas fotográficas, a Escola de Fotografia Áurea Fotográfica disponibiliza regularmente um post sobre um fotógrafo diferente. Isso porque a Áurea Fotográfica acredita que boas referências são fundamentais para o desenvolvimento da linguagem fotográfica, pois não é só a técnica que forma um bom fotógrafo. A temática, o conceito e o olhar são fundamentais para o aprimoramento de quem quer explorar a fotografia, seja profissionalmente ou apenas como um hobby.

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Leiam o texto abaixo e se surpreendam e se emocionem com as fotos de Diane Arbus!

The Human Pincushion, Ronald C_ Harrison, New Jersey, 1962

Dar uma câmera fotográfica a Diane Arbus é como dar uma granada de mão a um bebê.

Norman Mailer

Diane Nemerox nasceu em Nova York no dia 14 de março de 1923 e cresceu no Central Park West. Seu pai possuía uma loja de departamentos na 5a Avenida. Aos 14 anos Diane conheceu Allan Arbus, com quem ela se casou quatro anos depois. Foi com Allan que Diane tomou gosto pela fotografia. O Casal trabalhou em diversas revistas de moda, além de fazer uma campanha publicitária para a loja de departamentos do pai de Diane. Contudo, depois de se separar de Allan, Diane resolveu seguir um caminho próprio. Foi então que estudou com Alexey Brodovitch, Richard Avedon e, principalmente, Lisette Model que teve influência decisiva no estilo da fotógrafa. No início dos anos 60 Diane deu início à carreira de fotojornalista e publicou na Esquire, The New York Times Magazine, Harper`s Bazaar e Sunday Times, entre outras revistas. Por esta altura, escolheu uma máquina reflex de médio formato Rolleiflex com dupla objetiva, em detrimento das máquinas de 35 mm. Com a Rolleiflex teria “vistas largas”, mais resolução e um visor à altura da cintura que lhe proporcionava uma relação mais próxima com o fotografado.

Identical twins, (Roselle, New Jersey, 1967

Apesar de pertencer a uma família da alta burguesia e de ser fotógrafa de moda, Arbus optou, como novo trabalho, por fazer de sua arte fotos despojadas de qualquer glamour. Para tanto, fotografou obsessivamente os freaks dos porões de uma Nova York triunfante, onde a ordem moral vigente determinava, através de dispositivos legais do município, a repulsão de pessoas inconvenientes à limpidez das rotas turísticas da cidade. Assim, indigentes, prostitutas e outros “maus elementos” foram varridos para as zonas periféricas, evitando qualquer mal estar para as classes favorecidas da região central. Diane obstinou-se justamente nesses personagens marginalizados. A eles juntaram-se anões, gigantes, deficientes mentais e travestis, que se tornaram personagens recorrentes em sua galeria de excentricidades. Diane adorava essas pessoas estranhas pelos quais afirmava sentir ao mesmo tempo fascinação e vergonha: “como um personagem de um conto de fadas o freak aparece para nos obrigar a decifrar um quebra-cabeça”. E ela continuava dizendo que “a maioria das pessoas passam a vida temendo uma experiência traumática. Os freaks nasceram banhados pelo trauma. Com isso passaram no teste da vida. São aristocratas”. Os retratos são sempre em preto e branco. Percebe-se que seus modelos posam estáticos para ela, o olhar fixo na câmera. O que se vê são pessoas cruamente expostas em sua precária condição humana, fortemente marcadas por um traço, ou vários, que as insere num grupo específico, uma comunidade ou o que hoje modernamente chamamos de uma “tribo”: os travestis, anões, mascarados, etc. Com isso Arbus abriu um curioso diálogo entre aparência e identidade, ilusão e crença, teatro e realidade. Uma pessoa é o que ela parece ser? Sua imagem funciona como um carimbo de identidade? Ou existe um “para além” da forma? Apesar de profundamente inseridos num contexto social, para Arbus seus modelos são pessoas únicas que representam metáforas delas mesmas. Procuram, ao acentuar um aspecto físico, um detalhe qualquer na roupa, a diferenciação possível dentro do grupo a que pertencem. Numa tradução livre de suas palavras ela diz que seus modelos “inventados por suas próprias crenças são autores e heróis de um sonho que se faz real na medida em que nós, espectadores, nos permitimos deixar abismar”. Com seus retratos, ao evocar a cumplicidade de quem olha, Arbus permite que surja nesta relação tridimensional (artista, modelo e espectador) o espaço da criação. Seria este o “mais além”? O lugar da fantasia de cada um? Susan Sontag, no prefácio do livro Women (Ed. Random House, New York) de Annie Leibovitz, propõe uma questão interessante: “A fotografia não é uma opinião. Ou é?” Para Arbus um retrato é “um segredo sobre um segredo”. Quanto mais ele revela, menos sabemos, mais ficamos intrigados. Num certo sentido o retrato convida a uma opinião, pede uma reação, reação esta calcada nas representações que brotam do imaginário de quem olha.

Mexican dwarf in his hotel room (Lauro Morales, aka Cha Cha), New York, 1970

Além disso, os retratos de Diane Arbus trazem quase sempre a combinação de dois elementos fundamentais. Em primeiro lugar, uma empatia do sujeito fotografado com o fotógrafo. Os modelos de Diane parecem confiar nela, oferecendo-se à câmara com o olhar. Por outro lado, há um detalhe técnico que acrescenta uma aura de estranheza ao retrato: Diane foi uma das primeiras fotógrafas a usar sistematicamente o flash juntamente com a luz do dia. Não só isto evitava o escurecimento de rostos frente a cenários demasiadamente claros, como também banhava o modelo com uma luz dura e direta, sem artifícios. O resultado desta combinação, além da precisa escolha das pessoas fotografadas, é um trabalho marcante e perturbador, que coloca Diane Arbus como um dos nomes mais importantes da fotografia documental

Child with a toy hand grenade in Central Park, New York, 1962

Diane Arbus também gostava de fotografar casamentos e outros rituais que para ela representam momentos marcantes de emoção compartilhada. Procurava mostrar que o contágio de sentimentos, o caráter repetitivo dos rituais insere as pessoas nas suas comunidades dando sentido à vida, tecendo a identidade de cada um pela identificação com o outro. Ao exprimir o retorno do mesmo, o ritual parece querer “driblar” a morte. Se pensarmos que a fotografia congela um instante no tempo, Arbus imortalizou seus modelos, imortalizou Nova York como o território livre que abriga todo tipo de gente.

Masked woman in a wheelchair, Pa_, 1970

A sensação de estranhamento diante das fotografias de Diane Arbus remete a um artigo escrito por Freud em 1919 “Das Umheimliche”, cujo título original foi traduzido como “O Estranho”, que pode ser também o inquietante, o macabro. A palavra alemã “umheimliche” curiosamente traz uma ambigüidade que oscila entre num extremo o “familiar” e no outro o “desconhecido”. Então tudo que para nós é estranho é ao mesmo tempo familiar. Duas faces da mesma moeda. Nossa inquietação diante do estranho só é possível porque ele nos leva de encontro a um familiar que ficou esquecido, dormindo calado no inconsciente. Não raro diante de uma fotografia de Arbus surge o primeiro impulso de afastar o olhar, desconcertados “não queremos ver” para em seguida, querermos “ver” no sentido pleno de “olhar” (sentir o que se passa no nosso interior). As fotos de Diane tiveram reconhecimento imediato, tanto que ela recebeu duas vezes a bolsa Guggenheim, em 1963 e em 1966, para subsidiar seu trabalho e desenvolver melhor um trabalho de autor. Um ano após sua primeira bolsa, seu trabalho foi reconhecido por John Szarkowski que deu forma a primeira exposição da fotógrafa no Museu de Arte Moderna (MoMA), em Nova York. Depois ela se dedicou a ensinar fotografia na Parsons School of Design em Nova York e no Hampshire College em Amherst, Massachusetts.

Hermaphrodite and Dog in a Carnival Trailer, Maryland, 1970

No fim dos anos sessenta Arbus entrou nos asilos e hospitais e fez dos velhos, doentes e anormais seus modelos. Nos retratos “untitled” vê-se todo tipo de tragédia humana que nos chocam enquanto seduzem o mórbido que habita em cada ser humano. É desta época os perturbadores retratos com máscaras grotescas. Se, como afirma outra fotógrafa famosa, Dorothea Lange “cada retrato de outra pessoa é um auto-retrato” as fotos de Diane Arbus são o seu duplo, o reflexo de uma alma atormentada à beira do horror.

A Husband and Wife in the Woods at a Nudist Camp, New Jersey, 1963

Quando no auge de sua carreira, a fotógrafa se suicidou ingerindo barbitúricos e cortando os pulsos em 26 de julho de 1971. Em 1972 John Szarkowski concebeu uma exposição retrospectiva do trabalho de Diane. O catálogo da exposição tornou-se num dos mais influentes livros de fotografia. Desde então, foi reimpresso 12 vezes e vendeu mais de 100 mil cópias. A exposição do MoMa viajou por todo o país e foi vista por 7 milhões de pessoas. No mesmo ano, Arbus tornou-se a primeira fotógrafa americana a ser escolhida para a Bienal de Veneza. Em 2007 estreou o filme ‘A Pele’, com Nicole Kidman, baseado na vida da fotógrafa.

Boy with a straw hat waiting to march in a pro-war parade, New York, 1967

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